mercoledì 5 novembre 2008

"A Corte do Norte" III - por Roberto Manigrasso


Comentário de um aluno de Português ao filme "A Corte do Norte" de João Botelho, visto em grupo na passada sexta-feira, dia 31 de Outubro.



A Corte da Rosalina

Numa Madeira enfeitiçada, sombria, tão distante daquela luminosidade oceânica que talvez erroneamente imaginemos, é situado o filme de João Botelho em concurso no “Festival Internacional do Filme de Roma” deste ano.
Baseado num romance de Augustina Bessa-Luis (Amarante 1922), o filme narra das vicissitudes duma nobre família da ilha, os Barros, a partir da chegada da imperatriz Elisabete da Áustria ao Funchal no ano 1860, até hoje.
As mulheres desta família, todas com pouca sorte, são interpretadas – infelizmente sem muito discernimento – pela actriz Ana Moreira, tão bonita como glacial.
A primeira heroína do romance é a Rosalina, uma ex-prostituta com veleidades de actriz que, casando-se com o rico Gaspar de Barros, eleva-se à categoria de baronesa da Madalena do Mar. Ela é tão semelhante à imperatriz Sissi, representada da mesma Ana Moreira, que sofre uma espécie de desdobramento da personalidade. A perturbante atitude da soberana vinda de longe leva Rosalina a acentuar o mais possível a sua semelhança com ela, e não só aquela física.
A ilustre hóspede austríaca é aqui muito diferente de como a cinematografia passada no-la propôs: inacessível, intriguista, quase libertina, talvez mais próxima da realidade histórica, da qual porém não gostamos.
O regresso à pátria de Sissi deixa atónita Rosalina a qual se afasta da sua família para se retirar na sua “Corte no Norte” da Madeira.
Durante o seu exílio voluntário ela conhecer-se-á a si própria através da arte. Numa cópia do quadro de Caravaggio representante “Judite que toma Holofernes”, Rosalina encontrará a força de opor-se ao próprio destino, desaparecendo misteriosamente. Muitos anos depois, os seus filhos assistirão a uma representação da “Dama das Camélias” num teatro de Lisboa, onde - com um lance teatral digno do melhor Dumas filho – a actriz principal é mesmo ela, agora protagonista absoluta do próprio fado.
A narrar esta história é a ultima descendente de Rosalina, a jovem e igualmente rebelde Rosamund. Ela tece o enredo duma saga familiar sem pontuação, num estilo querido de Saramago.
Entre os muitos - talvez de mais? - personagens do filme, que se perseguem numa heteronomia familiar, há a infeliz Águeda, a neta da Rosalina, desesperadamente perdida pelo próprio irmão, jogador de cartas e de mulheres. Com um outro golpe de teatro ela suicidar-se-á, cega de ciúme.
A operação de Botelho não teve pleno êxito. Não foi fácil conter em 122 minutos uma tão densa sucessão de situações, cada uma das quais mereceria um filme.
Ainda assim, a obra resulta agradável na escolha dos interiores típicos da Madeira e, sobretudo, pela fotografia de João Ribeiro cujo efeito “daguerreótipo retocado” é deveras sugestivo.
Enfim, mais uma vez, fico perplexo em frente duma censura inflexível que, ainda hoje, proíbe um filme como este aos menores de 18 anos.


ROBERTO MANIGRASSO

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